As pessoas se conectam com mudanças, não com funcionalidades

Publicado em 29 de maio de 2026

*Por Alessandro Padin 

Vivemos um momento em que a atenção do usuário se tornou um dos ativos mais disputados da economia digital. Em poucos segundos, o leitor decide se permanece em uma página, ignora um anúncio ou simplesmente segue rolando a tela. Nesse contexto, contar boas histórias deixou de ser um diferencial para se tornar uma competência estratégica.

Para James McSill, criador do McSill Story Studio e uma das maiores autoridades globais em storytelling aplicado a negócios, branding e entretenimento, o erro está em acreditar que isso se conquista apenas com criatividade. “O que realmente funciona não é a ideia engenhosa, mas a precisão emocional no início”, afirma.

Segundo ele, a abertura de qualquer enredo precisa refletir com exatidão o estado interno do público. “O leitor não procura novidade no sentido superficial, busca algo que o reconheça. Quando a narrativa toca uma dor latente, uma frustração silenciosa ou um desejo não resolvido, cria-se um vínculo imediato”, explica. E este processo, destaca, não é racional, é emocional e, justamente por isso, mais difícil de ignorar.

Essa lógica é especialmente relevante para afiliados e profissionais de marketing digital, que operam em ambientes altamente competitivos e, muitas vezes, promovem produtos que não criaram. Para McSill, esse suposto distanciamento da autoria não enfraquece a história. Pelo contrário, pode fortalecê-la: “A fragilidade surge assim que o afiliado tenta ocupar o lugar do criador. A autenticidade aparece ao assumir o papel de tradutor da transformação.”

Jornada do cliente

Em projetos desenvolvidos com equipes comerciais e afiliados, ele observa que a conversão melhora quando o foco sai da oferta e passa para a jornada do cliente. “A comunicação deixa de enfatizar o que se vende e passa a mostrar o impacto na vida de alguém, a história ganha densidade. As pessoas se conectam com mudanças, não com funcionalidades”, pontua.

Essa mudança de perspectiva também redefine o uso de modelos simbólicos e estruturas narrativas. McSill rejeita a ideia de que exista um exemplar único ou um arquétipo universal para vendas rápidas no digital: “O que vemos, na análise de resultados reais, é que narrativas baseadas em perfeição e autoridade absoluta tendem a gerar menos adesão.”

O que funciona melhor, segundo ele, são trajetórias reconhecíveis. “Uma história eficaz mostra alguém enfrentando um problema concreto, tomando uma decisão relevante e emergindo com uma compreensão compartilhável. É um modelo humano, não heroico”, explica. Essa abordagem, mais vulnerável e menos polida, responde diretamente ao atual contexto de erosão da confiança em discursos excessivamente formatados.

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O analógico na resistência

No marketing, é comum a máxima de que “as pessoas compram pela emoção e justificam pela razão”. Para o especialista, o problema não está na frase, mas na forma como é aplicada. “Na prática, muitas comunicações criam emoção e depois a quebram com blocos racionais que não pertencem ao enredo”, observa.

A lógica, no método que criou, não aparece como argumento isolado, mas como consequência natural dos acontecimentos narrados. “Dados, provas e justificativas precisam surgir dentro da experiência, não como interrupções. Quando isso acontece, o leitor constrói a própria conclusão”, frisa. Esse processo, segundo ele, depende fortemente do subtexto, aquilo que é compreendido sem ser explicitamente dito.

Gatilhos mentais

Outro ponto sensível no marketing digital é o uso recorrente de gatilhos mentais como escassez, urgência e autoridade. Embora amplamente difundidos, McSill alerta para os riscos de utilizá-los de forma isolada: “Não é um erro técnico, é uma limitação estratégica.”

Em auditorias conduzidas pelo McSill Story Studio, ele identificou operações altamente dependentes desses gatilhos que, ao longo do tempo, começaram a perder eficácia. “Sem um contexto por trás, esses elementos são percebidos como impostos. Quando inseridos dentro de uma história coerente, passam a fazer sentido”, explica. A urgência passa a existir porque algo real está em jogo dentro da narrativa.

Para quem deseja aplicar storytelling de forma prática, McSill reforça que relatos de clientes, da forma como costumam ser apresentados, raramente constituem uma boa história. “Na maioria das vezes, são apenas registros de resultado”, salienta.

Transformar um depoimento em uma história viável exige reconstruir a trajetória. “Trabalhamos com quatro elementos essenciais: o estado inicial, o conflito, o momento de decisão e a transformação interna que antecede qualquer efeito externo”, detalha. Ao respeitar essa estrutura, o leitor passa a se projetar nele.

E essa capacidade, reforça McSill, é o ponto-chave que influencia decisões de compra. “Histórias eficazes não vendem apenas soluções. Elas oferecem um percurso emocional no qual ele se reconhece”, conclui.

Leitura de contexto

Um dos equívocos mais comuns no uso do storytelling no marketing digital é tratá-lo como uma técnica replicável, quase um modelo pronto. Na prática, isso esvazia a força da construção. “Quando analisamos campanhas que performam consistentemente bem, o que vemos não é a aplicação de uma fórmula, mas uma leitura muito precisa do contexto emocional do público”, comenta.

A estratégia eficaz nasce, portanto, da escuta profunda. “Antes de qualquer estrutura, existe uma tentativa genuína de compreender em que ponto psicológico o público se encontra. É essa leitura que determina onde a história começa”, explica. Se a partida é mal posicionada, o conteúdo pode até ser tecnicamente correto, mas falha em criar adesão.

Essa visão ajuda a entender por que tantas campanhas bem produzidas não convertem. “Elas têm uma construção textual bonita, mas que não dialogam com a tensão real do leitor. O público percebe quando o discurso é sobre ele ou apenas do produto”, explica.

Outro ponto central no método McSill é a forma como a influência acontece: tentar convencer diretamente o lead é um erro conceitual. “Ocorre quando se cria espaço para que a pessoa chegue sozinha à conclusão. No momento em que você força a lógica, quebra o encantamento”, diz.

Ele explica que construção bem elaborada não empurra argumentos, mas organiza experiências. “Em vez de dizer ‘isso funciona porque…’, você mostra uma sequência de eventos em que a eficácia se torna evidente. O leitor percebe a lógica sem sentir que ela foi imposta.” Esse mecanismo, segundo ele, gera decisões mais sólidas e menos dependentes de pressão externa.

No marketing de afiliados, onde a confiança é um ativo frágil, essa abordagem se torna ainda mais relevante. “Sendo honesta, bem estruturada e emocionalmente precisa, não apenas vende, constrói reputação”, complementa.

Storytelling como ativo de negócio

Muito se fala sobre storytelling no marketing contemporâneo, mas, na prática, transformar boas histórias em valor concreto ainda é um desafio para marcas e criadores. Para Juliana Queissada, criadora da Queissada Comunicação, o ponto de virada ocorre quando o conteúdo se conecta ao repertório simbólico, social e cultural de quem o consome.

“Para gerar valor real, precisa conversar com a experiência do consumidor”, afirma. Segundo ela, não basta apresentar uma boa história: é essencial que o público tenha referências e valores que permitam identificação. A proposta pode até ensinar algo novo ou provocar reflexão, mas só cria vínculo ao encontrar pontos de contato reais com a bagagem de quem está do outro lado.

Um exemplo prático dessa lógica aparece em projetos desenvolvidos pela empresa, especialmente em histórias empreendedoras femininas. “Sempre que contamos a trajetória de uma mulher que veio de baixo, com pouco ou nenhum poder aquisitivo, que conquistou espaço por meio do estudo e do trabalho e hoje emprega outras parceiras, estamos conectando diretamente o público feminino e também homens que compartilham dessa origem”, explica.

A combinação de fatores como empreendedorismo, ascensão social e gênero amplia a identificação e potencializa a repercussão, inclusive em veículos relevantes do jornalismo de negócios.

Clareza estratégica

Na outra ponta, Juliana observa erros recorrentes em marcas e criadores que tentam “contar histórias” sem clareza estratégica. O principal deles, aponta, é não compreender para quem o conteúdo é produzido. “Para quem eu escrevo, produzo ou filmo esse storytelling?”, questiona. Outro equívoco está na construção: ausência de um bom gancho inicial, falta de conexão logo no começo e dificuldade em sustentar o interesse ao longo do conteúdo.

Ela cita como contraponto o trabalho realizado para a Construtora Baggio, em que a abordagem foi estruturada de forma consistente para um perfil B2B, voltado a grandes obras hospitalares, centros comerciais e redes hoteleiras. A clareza foi determinante para gerar consistência e posicionamento. “Uma narrativa superficial seria tratar apenas de forma institucional ou direcionada a um público B2C”, afirma. 

Essa leitura reforça a convicção de Juliana de que o princípio do storytelling está, necessariamente, na escuta. “Defendo 100% que começa ao entender quem irá consumi-lo”, diz. Um exemplo claro dessa transformação ocorreu quando levou a Queissada Comunicação para a Espanha. Com cinco anos de atuação no Brasil, a agência precisou revisar profundamente sua abordagem ao lidar com espanhóis e portugueses. “Esse estudo nos levou a alterar os conteúdos do LinkedIn e do Instagram, o que fortaleceu o posicionamento da agência”, relata.

Gerar valor

Em um cenário de produção acelerada e em escala, Juliana defende que a estratégia não deve ficar restrita a grandes campanhas pontuais. Pode ser aplicada de forma contínua nas redes sociais, na assessoria de imprensa, em eventos e na comunicação interna. “Storytelling é todo material bem estruturado que cria ligação entre a empresa e o consumidor”, pontua.

No entanto, ressalta que constância sem intenção não gera valor. “A pergunta não é apenas se a empresa pode produzir diariamente, mas se vai tocar o meu público”, diz. Por isso, mais do que volume, Juliana defende planejamento e análise. 

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