Home Conteúdos O analógico na resistência Publicado em 29 de maio de 2026 Por Alessandro Padin Em meio à aceleração tecnológica do audiovisual e à proliferação de imagens geradas por algoritmos, alguns profissionais seguem insistindo em um caminho que parece ir na contramão da automação. Não por resistência, mas por entender que certos elementos da criação jamais foram técnicos e, portanto, não podem ser replicados por máquinas. É a partir desse prisma que se construiu o trabalho de Valmir Puertas Rodrigues, conhecido como Vras77, referência na produção de videoclipes ligados à cena do rap e do hip hop no Brasil. Nascido em 1977 e criado na zona norte de São Paulo, carrega uma trajetória marcada por improviso, adaptação e aprendizado fora de ambientes formais. Antes de se consolidar como produtor audiovisual, foi atleta profissional de patins in-line por 15 anos, trabalhou como frentista, eletricista e operador de câmera em eventos populares. Foi nesse caminho errante que desenvolveu o olhar que hoje define sua estética. Autodidata, começou a produzir seus próprios vídeos no início dos anos 2000 e, a partir de 2010, encontrou no hip hop um território ainda pouco explorado. Mesmo cercado hoje por recursos digitais avançados, seu processo criativo permanece profundamente analógico em sua essência. “A máquina não faz o sentimento do momento”, afirma. Para ele, não importa o quão precisa seja uma imagem gerada artificialmente: ela não reconhece o instante exato de apertar o REC para capturar a lágrima de um artista gravando seu primeiro trabalho, nem o sorriso inesperado de uma criança na quebrada que muda completamente o clima da cena. “Meu processo é baseado na troca, no aperto de mão, em sentir a energia do lugar. Esse feeling de saber onde a luz bate no rosto de alguém para mostrar a verdade da pessoa é humano”, frisa. Aprendizado de rua Essa leitura vem diretamente do aprendizado do asfalto, que segue guiando suas escolhas estéticas. A experiência de trabalhar com pouco ensinou que improviso é uma forma de inteligência. “É a maior tecnologia que existe”, diz. Por isso, mesmo com acesso ao digital, não busca a perfeição higienizada do computador. Prefere a registro viva, marcada pela textura do real: o reflexo na poça de água, a cor do tijolo na quebrada, a sombra do poste, o cachorro atravessando o quadro: “O aprendizado de rua me deu um filtro de vivência muito mais forte do que qualquer filtro de software.” Na avaliação de Vras77, a tecnologia facilitou o acesso ao audiovisual, mas também produziu um efeito colateral evidente: a padronização. Hoje, vídeos tecnicamente impecáveis são comuns, mas isso não significa que todos tenham algo a dizer. “Qualquer um faz uma imagem nítida. A diferença está em fazer uma que comunica. Onde eu coloco a câmera é fruto do que eu vivi, dos clipes em VHS que assisti, do rap que ouvi”, salienta. A repetição, aponta, vem do hábito de seguir receitas ditadas por algoritmos, mas a autoria, por outro lado, nasce da bagagem individual. Manter autenticidade em um cenário mediado por dados e plataformas exige, segundo ele, um retorno consciente à base. O hip hop, nesse sentido, funciona como norte ético e estético. Sua escolha é filmar as pessoas em seus próprios territórios, com a luz disponível, em contextos reais. Não há interesse em cenários artificiais para simular impacto. “Se eu me preocupar só com o que o algoritmo quer, eu viro um robô. A verdade está no detalhe que a máquina não cria: o jeito de andar, a gíria que vira imagem, o respeito pelo lugar”, argumenta. Cidadãos críticos Esse mesmo princípio orienta seu trabalho como educador em oficinas e formações audiovisuais. Antes de ensinar tecnologia, Vras77 faz questão de desenvolver o olhar. Crianças e adolescentes aprendem primeiro a observar, sentir o equipamento, entender o peso da câmera e a história que querem contar. “Se não tiver sensibilidade, o trabalho vai sair vazio”, afirma. Para ele, formar criadores passa antes por formar cidadãos críticos, conscientes do poder da cena e do lugar de onde falam. Ao refletir sobre o futuro da criação audiovisual, o conselho é direto: a ferramenta nunca pode ser maior do que a mensagem. Seja uma câmera de ponta, um celular potente ou sistemas de inteligência artificial, todos são apenas meios. “A tecnologia é a caneta. Quem escreve a história é você”, resume. Por isso, seu convite aos iniciantes é sair da tela, ouvir os mais velhos, viver o território e compreender a dor e a alegria da própria comunidade. É nesse contato que nasce uma identidade que não pode ser copiada. A criação de fato, defende, está ancorada em algo que nenhuma atualização resolve substituir: o vínculo com o cotidiano. Quando a obra é produzida a partir desse lugar, não depende de tendências nem está sujeita ao desaparecimento rápido do feed. “Se você filmar com o coração e a verdade da sua realidade, a obra não vai ser só mais um vídeo que some em 24 horas. Ela fica”, conclui. SUGESTÃO DE BOX O que a máquina ainda não captura Para Vras77, a tecnologia pode facilitar o processo, mas não substitui aquilo que nasce da presença, vivência e da leitura de contexto. Alguns elementos do audiovisual seguem essencialmente humanos: Timing emocional A lágrima que escapa, o sorriso inesperado, o olhar que muda o clima da cena. Não existe algoritmo que reconheça o instante exato de apertar o REC. Leitura do território A luz que vem da laje, a sombra do poste, a textura do chão molhado. Nada disso é preset. É observação, escuta e respeito pelo espaço. Bagagem cultural Clipes em VHS, referências do rap, vivências acumuladas fora da tela moldam decisões visuais que nenhuma IA consegue replicar. Improviso como método Saber criar com pouco, ajustar no momento e reagir ao inesperado ainda é uma das maiores tecnologias criativas da rua. Verdade antes da estética A imagem pode não ser perfeita, mas quando carrega verdade, conecta. A autenticidade não precisa de filtro pronto. Relacionadas MAGAZINE A pressa é inimiga da comissão Trabalhar de qualquer lugar, faturar enquanto dorme, transformar a internet na sua principal fonte... MAGAZINE Perpétuo ou lançamento? Eis a questão! No marketing digital, a escolha entre vendas na modalidade perpétua ou concentração de esforços...